Pororoca: A onda que transforma rios e ecossistemas na Amazônia
O que é e como acontece?
Você já ouviu falar da Pororoca? Esse fenômeno natural impressionante ocorre quando a maré enchente invade o curso de alguns rios e de alguns ambientes costeiros com grande força, devido a expressiva energia da maré em relação a força fluvial e ao espaço que se propaga, é capaz de deslocar grandes quantidades de massa de água, que podem avançar por quilômetros rio acima! Seu nome é de origem tupi-guarani e significa algo como “grande estrondo” e desempenha um papel fundamental no equilíbrio dos rios e ecossistemas da Amazônia.
Perigosa e fascinante, a pororoca pode ter riscos principalmente para pequenas embarcações devido à sua força que muda a velocidade do rio em segundos. Ao mesmo tempo, é um grande atrativo turístico com ondas impressionantes que atraem surfistas e visitantes para apreciar esse espetáculo natural.

Figura 1. Pororoca. Disponível em: https://portalamazonia.com/amapa/pororocas-saiba-em-quais-lugares-da-amazonia-o-rio-encontra-o-mar/
Além disso, a Pororoca tem um papel importante na movimentação de sedimentos e disponibilização de nutrientes e oxigênio, influenciando a formação de bancos de areia, qualidade da água e a distribuição de espécies de peixes e outros organismos aquáticos, sendo considerada essencial para a criação de habitats nos rios e áreas costeiras, além de moldar o ambiente para reprodução de animais que são adaptados ao evento.
A onda que molda o rio
Um estudo conduzido pelo pesquisador Adriel Carneiro do Laboratório de Pesquisa em Monitoramento Ambiental Marinho (LAPMAR) da UFPA, analisou o fenômeno no Rio Sucuriju e mostrou que, após a passagem da onda, a velocidade da água invertia e dobrava rapidamente.

Figura 2. Mapa da localização do monitoramento feito na pesquisa Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.rsma.2024.103721.
Mais de 70 ocorrências foram registradas em 03 meses de monitoramento do rio amapaense, essas mudanças bruscas na velocidade da corrente e energia do sistema são demarcadas por um “Salto Hidráulico”, que é a velocidade hipotética de propagação dessa onda, considerando somente as diferenças de altura. Um desses registros captou a mudança da velocidade de salto hidráulico de 1,97 m/s para 4,81 m/s em apenas 30 segundos, ou seja, mais que duplicando a velocidade!

Figura 3. Representação gráfica dos saltos hidráulicos. Fonte: https://doi.org/10.1016/j.rsma.2024.103721
Além disso, o estudo mostrou que a Pororoca gera uma turbulência que impacta o ecossistema local e em Sucuriju ela é classificada como “breaking bore” ou onda quebrada na foz do rio, que remete à uma onda de maré que quebra bruscamente, e como “undular bore” ou onda ondulada, mais na cabeceira do rio, com ondas secundárias bem demarcadas (whelps). Esse fenômeno atua como um modelador do rio, influenciando a distribuição de nutrientes, organismos e sedimentos.


Figura 4. Imagem da Foz, à esquerda, e da montante, à direita, do local de monitoramento da pesquisa. Fonte: https://doi.org/10.1016/j.rsma.2024.103721
O pesquisador Adriel complementa que o fenômeno ocorre em vários ambientes diferentes no mundo, mas sempre na zona de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. Muito mais que somente o “encontro do rio com o mar”, a pororoca é um fenômeno complexo que não necessariamente demarca o encontro dessas águas, mas que demonstra como essa grande força e energia da onda de maré tem a capacidade de moldar completamente o ambiente a sua volta, reger a dinâmica hidro sedimentar e bioquímica do local, além de ditar a migração de diversas populações de organismos.
Referências
CARNEIRO, A. G.; ROLLNIC, M. Hydrodynamic and turbulence associated with tidal bore propagation in an amazonian macrotidal system. Regional Studies in Marine Science, v. 77, p. 103721, dez. 2024.