A poeira mineral e a Amazônia

Você conhece o termo “Poeira Mineral”? A poeira mineral são aerossóis na atmosfera que permitem a formação das nuvens. É muito difícil formar as gotículas de nuvem sem que pequenas partículas de aerossol atuem como “sementes” para iniciar a sua formação! Esta poeira mineral desempenha um papel muito importante no sistema climático, e na manutenção dos ecossistemas!

Poeira do Saara transportada pelo vento para as Américas. Fonte: National Oceanic and Atmospheric Administration, youtu.be/J7ORTZcqD68. 

Como? Por meio das interações biogeoquímicas de macro e micronutrientes que fertilizam os oceanos e continentes! Cada pulso de Poeira Mineral influencia a biologia e o clima em lugares a milhares de quilômetros de distância da fonte.

As regiões áridas e semiáridas são as principais fontes globais de poeira mineral. Nestes ambientes estas partículas são levantadas para a atmosfera pela ação do vento, transportadas e depositadas longe de sua origem. O deserto do Saara, no norte da África, é o maior deserto, e a mais consistente fonte de poeira mineral do mundo (National Geographic, 2020)! Mas o que isso tem a ver com a Amazônia?

A poeira mineral proveniente do Deserto do Saara atravessa o oceano Atlântico, ultrapassando 3 mil quilômetros de distância, e atinge a Amazônia, ajudando a fertilizar as plantas terrestres e os fitoplanctons! Os fitoplâncton são organismos microscópicos aquáticos capazes de realizar fotossíntese, sendo a base da cadeia alimentar dos ambientes aquáticos. Assim, milhões de toneladas de partículas de poeira mineral são erodidas todos os anos dos solos do deserto do Saara e são sopradas sobre o oceano Atlântico até a bacia amazônica (Gross et al., 2015).

Mas o Saara sempre foi a maior fonte de Poeira Mineral para a Amazônia?

Bem, Nogueira et al. (2021) realizou um estudo em um lago posicionado em uma área remota da floresta Amazônica, o Lago Pata (Figura 1). Uma das descobertas é que a influência da poeira do Saara sobre a bacia amazônica é provavelmente limitada geograficamente e, a fertilização pelo Saara não pode ser generalizada para toda a bacia Amazônica.

Figura 1. Mapa de localização do Lago Pata (PL na figura). 

Além disso, o estudo indica que o Deserto do Saara pode não ser a única fonte de poeira que atinge a bacia amazônica. Em escalas de tempo de longo prazo, o registro sedimentar no Lago Pata aponta para desertos africanos (Figura 2), tanto ao norte do país quanto ao sul, assim como os solos dos Andes centrais e argentinos, como contribuintes potenciais. O sul da África é mais importante do que o deserto do Saara para este setor da bacia amazônica durante o Holoceno médio a tardio (~8 mil anos atrás e se estende até o presente)!

Figura 2. Principais ambientes do continente africano. Fonte: GeoEnsino, www.geoensino.net/2012/08/ambientes-naturais-do-continente

O estudo sugere que o fluxo de poeira do Saara para o Lago Pata, durante o Holoceno médio, diminuiu até cinco vezes em comparação com a contribuição atual, que é coincidente com o Período Úmido Africano (14,8 – 5,5 mil anos atrás). Nesse período, em vez de ser o deserto arenoso que agora conhecemos, o Saara estava coberto de gramíneas e arbustos. Nesse ambiente, os caçadores domesticaram búfalos e cabras, e desenvolveram um sistema inicial de arte simbólica (NOAA) (Figura 3).

Figure 3. Os caçadores domesticaram búfalos e cabras e desenvolveram um sistema inicial de arte simbólica. Fonte: National Oceanic and Atmospheric Administration, www.ncdc.noaa.gov/abrupt-climate-change/End%20of%20the%20African%20Humid%20Period.

O estudo estimou contribuições menores de poeira mineral provenientes do Saara durante os últimos 7,5 mil anos. A contribuição do Saara na Amazônia ocidental variou de 4 a 10%. As outras contribuições foram do sul do continente africano (10 a 50%), de solos bolivianos/peruanos (8 a 11%) e, solos argentinos (13 a 15%).

Achou interessante? Confere o vídeo que a NASA desenvolveu para explicar o transporte da poeira mineral do deserto do Saara até a bacia amazônica.

O video original pode ser encontrado aqui: https://youtu.be/ygulQJoIe2Y

Referências

Alejandra Borunda, National Geographic. 2020. https://www.nationalgeographic.com/science/2020/06/concerned-saharan-dust-plume-crucial-to-ecosystem/

National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). https://www.ncdc.noaa.gov/abrupt-climate-change/End%20of%20the%20African%20Humid%20Period

Gross, A., Goren, T., Pio, C., Cardoso, J., Tirosh, O., Todd, M. C., Rosenfeld, D., Weiner, T., Custódio, D., & Angert, A. (2015). Variability in sources and concentrations of Saharan dust phosphorus over the Atlantic Ocean. Environmental Science & Technology Letters2(2), 31-37.

Nogueira, J., Evangelista, H., de Morisson Valeriano, C., Sifeddine, A., Neto, C., Vaz, G., … & Shimizu, M. H. (2021). Dust arriving in the Amazon basin over the past 7,500 years came from diverse sources. Communications Earth & Environment2(1), 1-11.

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