Os microplásticos e os organismos

Microplásticos (MPs) são partículas de plástico com dimensões máximas de 5 mm. Esse material é distribuído em grande escala nos ambientes, chegando a áreas mais remotas do oceano e se inserindo na cadeia alimentar de muitos organismos em escala global.

Figura 1: As variadas formas e tamanhos de microesferas de plástico. Fonte: 5Gyres

A produção mundial de resinas plásticas atinge cerca de 300 milhões de toneladas métricas por ano. Estes materiais apresentaram um aumento na produção anual de 8,7% entre 1950 e 2012. O PE (polietileno) e PP (polipropileno) são as resinas termoplásticas mais abundantes dentre os MPs coletados nos oceanos e regiões costeiras.

Microplásticos podem ser de origem primária ou secundária. Os MPs primários são produzidos industrialmente, como exemplo das microesferas. As microesferas são utilizadas em produtos de higiene pessoal como esfoliantes, creme dental e sabonetes, ou podem ser usados para dar textura a um determinado material. Contudo, as microesferas podem absorver as toxinas do meio em que estão, como pesticidas e poluentes. Após a ingestão deste microplástico por um organismo, as toxinas absorvidas podem ser liberadas para ele.

Os MPs de origem secundária são os microplásticos mais abundantes no meio ambiente. São resultado do uso e de degradação climática (sol, chuvas, ondas) de materiais plásticos maiores despejados em ambientes costeiros e no oceano. Em ecossistemas de praias, por exemplo, a degradação climática é responsável pela maior fonte de MPs secundários.

A maior parte de MPs são encontrados em regiões costeiras próximas de centros populacionais, com uma estimativa de 270.000 milhões de toneladas métricas de microplástico nessas áreas. Os MPs consumidos por plânctons não estão incluídos nesta estimativa. 

Os fitoplânctons são muito importantes para a cadeia alimentar marinha, uma vez que são os organismos base. A absorção do microplástico pelo fitoplâncton reduz a sua capacidade de fotossíntese e gera um estresse neste organismo, que não consegue expelir os microplásticos de seu corpo. A diminuição da fotossíntese e do número de organismos no ambiente pode causar a redução de todos os outros organismos seguintes.

Figura 2: Partículas de microplástico florescente ingeridos por 3 espécies distintas de zooplâncton (a) Marenzelleria spp., (b) Bosmina coregoni maritima, (c) Tintinnopsis lobiancoi. Fonte: Setälä, O., Fleming-Lehtinen, V., & Lehtiniemi, M., 2014.

A preocupação sobre resíduos plásticos nos oceanos se torna cada vez mais significativa ao passar dos anos, especialmente pela ingestão de plástico por organismos. No complexo estuarino do Maranhão, costa amazônica, foram encontrados fragmentos de plásticos ingeridos pela Hypanus guttatus, conhecida como arraia longa ou raia-lixo.

Figura 3: Exemplo de arraia longa. Fonte: Andy Murch.

Durante as análises das substâncias ingeridas, foi possível identificar índices significativos de MPs presentes nas arraias. A espécie é um importante predador de organismos bentônicos e bentopelágicos costeiros. Como um predador de topo, esses organismos são suscetíveis a acumular microplástico pela cadeia alimentar por ingestão passiva, ou seja, o ato de consumir um organismo que já apresentava microplástico em seu corpo.

Em seu estomago foi possível identificar que, do plástico ingerido, 82% eram fibras e os outros 18% eram fragmentos principalmente azuis (47%) ou transparente (35,3%), e em menor porções, preto (11,8%) e vermelho (5,9%).

Figura 4: Três categorias distintas de microplástico presentes no estômago da arraia longa, Hypannus guttatus, coletado no golfão maranhense, sendo: (A) fibra transparente, (B) fibra vermelha, (C) fibra azul, (D) fibra preta, (E) fragmento azul. Fonte: Egado et al. (2021)

Seis tipos de polímeros de MPs também foram encontrados nas arraias. O polímero mais abundante foi o PET (polietileno tereftalato), muito usado na produção têxtil, como roupas e lençóis. O PET é um tipo de microplástico comum no esgoto doméstico e, por ser um polímero denso, precipita até o fundo dos ambientes aquáticos e pode ser ingerido por organismos bentônicos. Outros dois polímeros também foram observados nas arraias: PE e PA, que podem ter sua origem associada ao material de pesca.

O uso e o descarte de produtos plásticos é um tema alarmante. Diversos países como o Reino Unido, França, EUA e Japão já adotaram medidas de proibição ou de redução do uso destes compostos. Empresas como a Dove, Unilever, Nestlé, Tramontina e outras, trabalham para a redução do uso de plásticos em geral, ou adotam o uso de plásticos reciclados. Em relação as microesferas plásticas, uma das melhores soluções é não utilizar. Existem diversos materiais orgânicos ou naturais que podem substituir e ter a mesma função que as microesferas plásticas, como produtos com açúcar, grânulos de café, aveia, ou minerais vulcânicos.

Abaixo temos o vídeo da NOAA explicando sobre os microplásticos:

Fonte: National Oceanic and Atmospheric Administration, https://oceanservice.noaa.gov/facts/microplastics.html

Referências

Anagnosti, L., Varvaresou, A., Pavlou, P., Protopapa, E., & Carayanni, V., 2021. Worldwide actions against plastic pollution from microbeads and microplastics in cosmetics focusing on European policies. Has the issue been handled effectively?. Marine Pollution Bulletin162, 111883. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0269749113005411

Andrady, A. L., 2014. The plastic in microplastics: A review. Marine Pollution Bulletin 119 (2017) 12–22. https://doi.org/10.1016/j.marpolbul.2017.01.082

Anderson, A., Baker, J. E., Andrady, A. L., Bouwman H., 2015. Sources, fate, and effects of microplastics in the marine environment: a global assessment. Rep. Stud. GESAMP No. 90, 96 p. https://ec.europa.eu/environment/marine/good-environmental-status/descriptor-10/pdf/GESAMP_microplastics%20full%20study.pdf

Covernton, G. A., Cox, K. 2019. Commentary on: Abundance and distribution of microplastics within surface sediments of a key shellfish growing region of Canada, Plos One 14(12): e0225945. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0225945

Egado, T., Brabo, L., Schmid, K., Sarti, F., Gava, T. T., Nunes, J., Chelazzi, D., Cincinelli, A., Giarrizzo, T. Ingestion of microplastics by Hypanus guttatus stingrays in the Western Atlantic Ocean (Brazilian Amazon Coast). Marine Pollution Bulletin162, 111799. 2021. https://doi.org/10.1016/j.marpolbul.2020.111799

Gazulha. V, O efeito do microplástico no zooplâncton marinho. Disponível em: www.vgconsultoriaambiental.com.br/o-efeito-dos-microplasticos-no-zooplancton-marinho/.

Setälä, O., Fleming-Lehtinen, V., & Lehtiniemi, M. Ingestion and transfer of microplastics in the planktonic food web. Environmental Pollution, 185, 77–83, 2014.  https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0269749113005411

Empresas que lutam contra o plástico: https://www.consumidormoderno.com.br/2019/10/24/13-iniciativas-de-grandes-empresas-na-luta-contra-o-uso-de-plastico/

Materiais que podem substituir as microesferas plásticas: https://redandhoney.com/replace-microbeads-natural-exfoliatiors/

Os microplásticos e os organismos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site is protected by reCAPTCHA and the Google Privacy Policy and Terms of Service apply.

Rolar para o topo
pt_BR