Os botos da Amazônia

Figura 1. Boto da Amazônia. Foto: Fundação Omacha, disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42486425.

Os golfinhos fluviais, ou botos, são encontrados apenas no norte da América do Sul e no continente da Ásia. Os botos são da ordem Cetacea, semelhante aos golfinhos. Porém, eles são filogeneticamente distintos dos golfinhos marinhos, ou seja, houve uma divergência na evolução a ponto de separar uma espécie em duas.

Essa evolução ocorreu ao longo de milhões de anos e algumas espécies de golfinhos se adaptaram tão bem aos habitats de água doce, que agora são muito diferentes de seus ancestrais marinhos.

Os botos da Amazônia são endêmicos, ou seja, nativos da região amazônica.

Na comunidade científica, ainda existem dúvidas de quantas espécies de botos existem no mundo. E na década de 1980 iniciou à discussão sobre as diferentes espécies de boto na Amazônia. Atualmente, somente duas espécies são reconhecidas, e duas são propostas. As espécies reconhecidas são do boto cor de rosa: Inia geoffrensis geoffrensis na Bacia Amazônica, e Inia geoffrensis humboldtiana, na Bacia do rio Orinoco. As espécies propostas são o Inia boliviensis (boto Boliviano) na Bacia do rio Madeira, e o Inia araguaiaensis (boto Araguaiano) na Bacia Araguaia-Tocantins.

Pesquisadores1,2 afirmam que I. boliviensis e I. geoffrensis são espécies válidas e diferentes com base na coloração, razão comprimento-massa, características cranianas, número de dentes, tamanho do cérebro, índice cefálico e formato do esterno. A espécie Inia araguaiaensis se divergiu da Inia geoffrensis há mais de dois milhões de anos e podem estar associadas a grandes eventos geológicos na bacia amazônica.

Figura 3. Representação da distribuição dos botos amazônicos. Fonte: Hrbek et al., 2014.

Na bacia Amazônica vive ainda a espécie Sotalia fluviatilis, denominado de Boto Tucuxi, que vive exclusivamente em ambientes fluviais. Contudo, o Tucuxi não está geneticamente relacionado aos botos de rio, sendo considerado um golfinho marinho.

Embora haja diferenças morfológicas (no corpo) das diferentes espécies de boto, a grande diferença é molecular. Outra forma de distinguir as espécies de boto é através das características acústica da vocalização dos mamíferos e dos mecanismos de ecolocalização de cada espécie. Por exemplo, alguns pesquisadores observaram que os golfinhos da Amazônia (Inia spp.) apresentaram propriedades acústicas de vocalização específicas que são diferentes dos sons produzidos pelas espécies recém-descritas I. araguaiaensis e I. boliviensis.

Independente da espécie, os botos estão ameaçados de extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). É possível encontrar sobre o Boto Cor de Rosa aqui e o Boto Tucuxi aqui.

Ameaça aos botos

Nos últimos anos, a população de botos da Amazônia se encontrou ameaçada por pescadores, pois sua carne e gordura são utilizadas como isca na pesca do bagre Calophysus macropterus, denominado de Piracatinga, que é uma espécie comercializada principalmente no mercado externo.

Para minimizar a ameaça aos botos, em 2015 a pesca e comercialização da Piracatinga foi proibida (através da Instrução Normativa Interministerial MPA/MMA no 06/2014). E em 2020, a proibição da pesca foi renovada.

Figura 4. O bagre Calophysus macropterus, denominado de Piracatinga. Fonte: https://amazonwaters.org/fish/piracatinga/

Além da pesca direta uma outra ameaça a população de botos da Amazônia é a captura acidental em redes de pesca dispostas ao longo do rio. Pesquisadores descrevem que este tipo de captura ocorre no canal Mamirauá (AM), que se liga ao sistema de lagos Mamirauá. Os botos têm o hábito de atravessar o canal para acessar os lagos, porém, este costuma ser completamente fechado por redes de emalhar durante a noite. O emalhe é uma arte de pesca passiva, onde a captura ocorre quando o peixe ou organismo se prende na rede e pode causar morte dos organismos capturados.

Outras ameaças aos botos são a matança indiscriminada devido a conflitos com atividades de pesca (os botos danificam aparatos de pesca e roubam ou danificam o pescado preso em redes), aumento no tráfego de embarcações, perda e degradação de seus habitats, e construção de hidrovias e barragens.

Figura 5. Fêmea de boto cor-de-rosa presa a um equipamento de pesca. Fonte: O ECO, https://www.oeco.org.br/salada-verde/boto-cor-de-rosa-e-salvo-apos-ficar-preso-em-rede-de-pesca-na-amazonia/. Foto: Thayara Carrasco/Instituto Mamirauá.

Turismo com botos

Como forma de proteção aos botos, o Ecoturismo é uma atividade econômica que vem crescendo em alguns municípios e sensibiliza sobre a importância da proteção destas espécies. Porém, a atividade ainda não apresenta regulamento sólido, e é voltada para a interação e alimentação do animal (Figura 6). Segundo a National Geographic e Organizações de Conservação e de Bem-estar Animal, as atividades que envolvem interação com a vida selvagem podem modificar o comportamento natural dos animais em seu ambiente. Essa interação pode ocorrer de diversas forma, seja para obter a “melhor” foto, ou ainda oferecendo alimentos diferentes da dieta alimentar, como biscoito e pedaços de pão.

Como forma de minimizar estes impactos aos animais, o regulamento e controle das atividades de ecoturismo com o boto, são baseadas na legislação:

“Lei 9.605/1998, que estabelece pena de detenção de três meses a um ano e multa para quem praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. E o Artigo 30 do Decreto Presidencial 6.514, que estabelece multas para quem molestar de forma intencional qualquer espécie de cetáceo (baleias e golfinhos), pinípede (focas, leões marinhos, morsas) ou sirênio (peixe-boi) em águas brasileiras” (ICMBio, 2016).

Figura 6. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Vida nova aos botos-cor-de-rosa, 2016. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/7725-vida-nova-aos-botos-vermelhos.

Ainda existe um caminho a ser percorrido quando o assunto é proteção e conservação dos botos da Amazônia. Nos últimos, o rápido declínio dessa população de mamíferos mostra que ações de fiscalização no contato humano e botos é necessário, assim como o reconhecimento e estimativa do número de integrantes das populações de boto, para que haja o melhor controle e proteção a essas espécies.

Referências

Alves, L. C. P. S., Machado, C. J. S., Vilani, R. M., Vidal, M. D., Andriolo, A., Azevedo, A. F. As atividades turísticas baseadas na alimentação artificial de botos-da-Amazônia (Inia geoffrensis) e a legislação ambiental brasileira. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 28, 2013.

2Da Silva, V. 1994. Aspects of the biology of the Amazonian dolphin genus Inia and Sotalia fluviatilis. PhD. Dissertation. University of Cambridge. 327 pp.

3Hrbek T, Da Silva VMF, Dutra N, Gravena W, Martin AR, Farias IP. 2014. A new species of river dolphin from Brazil or: how little do we know our biodiversity. PLOS ONE 9(1):e83623. DOI 10.1371/journal.pone.0083623.

Melo, J. F., Amorim, T. O., Paschoalini, M., & Andriolo, A. The biosonar of the boto: evidence of differences among species of river dolphins (Inia spp.) from the Amazon. PeerJ, v. 9, e11105, 2021. DOI 10.7717/peerj.11105.

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Pesca e comercialização da piracatinga ficam proibidas por um ano no país, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/moratoria-da-pesca-da-piracatinga

National Geographic. Reportagem especial: animais selvagens sofrem com o turismo ‘fast-food’ na Amazônia, 2017. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2017/10/reportagem-especial-animais-selvagens-sofrem-com-o-turismo-fast-food-na.

1Pilleri, G. & Gihr, M., 1980. Additional considerations on the Taxonomy of the genus Inia. Investigations on Cetacea, 11: 15–27.

Política por Inteiro. GT sobre a pesca da piracatinga: quais os riscos ambientais em jogo, 2021. Disponível em: https://www.politicaporinteiro.org/2021/01/22/gt-sobre-a-pesca-da-piracatinga-quais-os-riscos-ambientais-em-jogo/

Silva VMF; Freitas CEC; Dias RL; Martin AR. Both cetaceans in the Brazilian Amazon show sustained, profound population declines over two decades. PLoS ONE 13(5): e0191304, 2018. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0191304.

Reeves, R. R., & Martin, A. R. (2009). River Dolphins. Encyclopedia of Marine Mammals, 976–979. doi:10.1016/b978-0-12-373553-9.00223-6

Rodrigues, G. A., Fontes, D. F., & Santiago, D. A. M. A MATANÇA DE BOTO NA REGIÃO AMAZÔNICA POR PESCADORES. Revista de Estudos Interdisciplinares do Vale do Araguaia-REIVA, 1(01), 2018.

The Society of Marine Mammals. Sotalia fluviatilis (Tucuxi), 2021. Disponível em: https://marinemammalscience.org/facts/sotalia-fluviatilis/.

VIDAL, M. D. (2011). Botos e turistas em risco.Ciência Hoje, 47(281), 73-75.

 

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